segunda-feira, janeiro 16, 2012

O orvalho saturava a madrugada. A humidade que se desprendia das folhas quando os raios solares lhes tocavam tornava-se imperatriz matinal. Ele respirava fundo, enchendo os pulmões até ao limite, uma vez e outra, enquanto os seus olhos percorriam, uma vez e outra, o caboco redondo escavado no solo lamacento à força de unha, pau, pedra, sangue, osso, músculo, sacrifício em calor de amor, necessidade forçada porque os impulsos fala mais forte quando se vive livre, quando se ama um rapaz transforma-se rapidamente em homem, uma rapariga transforma-se rapidamente em mulher e mais rapidamente ainda em mãe.

O circunferência onde se iriam encaixar as primeiras pedras da casa de dois que já eram, outro que se anunciava, os outros que seriam também, que venham muitos mas venham fortes porque o mundo prova os seus na doença, peste, fome, guerra, amor, é ainda um rombo no chão lamacento por onde espreitam restos de raizes cortadas, vermes, larvas, minhocas que nunca tinham visto tão escaldante luz, habituados à penumbra, mas que sosseguem porque ainda antes de o dia terminar novamente estarão enterrados e escondidos, um vacuo no solo preenchido com mais obrigações do que sonhos. Uma a uma, mais leve ou mais pesada, todas cobertas de musgos e líquenes, durante a pesada manhã tomaram o seu lugar no alicerce que também seria parede, em cada uma depositada toda a atenção para evitar desencaixes,
quando tenho saudades do frio, é por que me esqueço como frios são estes dias que gelam ossos, mordem as orelhas, anestesiam os olhos.

quarta-feira, setembro 28, 2011

"ã: Oldies Goldies (3 de 3): Menos Oldie (só tem uns dois meses) e talvez menos Goldie também, Primeiras Semanas é uma jam sem edição posterior em que foram utilizada..."

Não há surpresa no encontro, há a felicidade do reencontro

Não há a surpresa na arte, há o reconhecimento da sensibilidade artistica

segunda-feira, setembro 26, 2011

A luz que entra no quarto não te ilumina, aumenta as tuas sombras. Deitada, protegida numa manta vermelha, expiras serenamente os teus torbulentos sonhos azuis sob o vigilar atento de quem não dorme. Entre as paredes escurecidas o eter adensa-se em vida, expessando o destino que corre ante os nossos olhos, os teus protegidos, os meus vigilantes.Sorves o fluxo do mundo com todas as suas cores, coas atentamente as alegrias das mágoas, grão a grão escolhes cada esperança, lençois são a eira onde debulhas os destinos da vida. Dia e noite, tu és dia e noite. Sou sol e lua, luz e sombra, gravito em torno dos teus sonhos longe e distante, distorcendo-te a realidade, arrastando-te para o frio e escuro infinito da incerteza. A luz que entra no quarto não nos aquece, não nos ilumina, apenas mantêm a distância constante entre dois astros azuis.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Abri a casa ao mundo e deixei-o sorver-se adentro das paredes ainda brancas, quase virgens, apenas levemente lambidas pelo tempo.

Obrigado casa, por alem de abrigo, permitires a entrada a tanta simpatia, tanta alegria, tantos olhares, tantos sorrisos, tanto bem querer.

sábado, fevereiro 27, 2010

Faltam 28 dias de encetarmos a nova peregrinação até compostela. Segundo o roteiro, temos 110 km camiño, dividido por 5 etapas.

Sairemos de Lisboa preferencialmente de carro, farendo uma viagem de aproximadamente 5 horas, e deixaremos estacionado em Compostela.


Em Compostela apanhamos o autocarro até ao nosso ponto de partida (Ourense), e aproveitaremos o resto do dia para nos descansar e visitar a cidade.


Começaremos a andar na madrugada de Domingo, atravessando o rio Miño, cerca das 07:00h, uma hora antes do surgir das primeiras luzes do dia, depois de nos terem roubado umas duas horitas de sono, devido à mudança do fuso horário e a chegada da hora de verão. Com um pouco de sorte às 08:30 apreciaremos o nascer do sol em Sartédigos. Caso não se registem grandes paragens ou surpresas, cerca das 12:30 estaremos em Cea, após percorrermos cerca de 23 km.


Ao segundo dia de peregrinação corresponderá a menor distância kilométrica entre cidades, que será compensada pela dureza de várias subidas e descidas. Com um pouco de sorte visitaremos o mosteiro de Oseira. A pernoita será em Castro Dozón, e no dia seguinte chegaremos ao albergue de A Laxe.


O quarto dia de peregrinação será o mais longo, com mais de 30 km a percorrer, antes de chegar ao Albergue de Outeiro. Devido à extensão da etapa, serão mais ou menos oito horas a andar, por isso será necessário preparar um bom farnel, e as paragens nos tascos e bodegas será uma obrigação. A ultima estirada, de 5 km em que se sobe desde o rio Ulla até Outeiro poderá obrigar a uma pausa mais prolongada no vale, para recuperar forças para a ultima estirada.


O quinto e ultimo dia de peregrinação será novamente pouco exigente, somente 17 km sem grandes subidas nem descidas. Uma vez em Santiago, uma pernoita num hostal e uma janta num restaurante perto da Catedral é exigível, de forma a celebrar condignamente mais uma aventura.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

É hoje. Definitivamente te abandono. Definitivamente vou embora. Sem um adeus escaparei pela porta fora. Dormes, descansas, sob o conforto dos nossos lençóis também tu te abandonas. Confias em mim, confias minhas palavras, excessivamente até. Porque tomaste as minhas palavras para ti, escolheste as que mais te convinham, como um perfume que dá textura à tua roupa, elas foram exaladas pois eram as palavras que precisavas ouvir. Ofereci-te também outras, gratuitamente, com um sorriso e sinceridade, mas essas tu não as quiseste, não ouviste, não ligaste, implicitamente recusaste aceitar eu ser quem eu sou. Definitivamente te abandono, pois hoje, silenciosamente tranco a porta e vou-me embora. Deixo as chaves de casa no tapete, fingindo-as esquecidas no chão. Os telefones também ficam, hão-te tocar na tua cabeceira quando acordares e ligares para mim. Cobardemente, eu assumo, não ter mais palavras para ti. Já as tive, e humildemente te as ofereci. Gastaste-as, usaste-as, ignoraste-as, espremeste o meu léxico para aproveitar o suco primaveril, cuspiste o restante consoante a tua conveniência. Silenciosamente te abandono. Sem um adeus, pois nem um adeus me deixaste para eu te deixar a ti.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

pensarei em como um dia te direi adeus, mas primeiro tenho que esvaziar esta garrafa

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Passeio os olhos entre as letras. Sinto-me feliz. Fujo para outras terras, embrenho-me em outros sonhos. Adormeço aconchegado entre as folhas escritas, acordando entre paragens para ouvir aquela voz feminina, fria, desumana, seca, que vai cuspindo os nomes das estações.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

"Pela janela mal fechada" já não se vislumbra o teu sorriso, não mais te vejo acenar adeus com uma camisola branca de mangas largas esvoaçando como uma borboleta, não mais partilho contigo o pequeno almoço da minha varanda, calei-me e emudeci a guitarra.

És agora distância transformada em sonho, distante miragem projectada sem fronteiras, longínqua ilusão esperançada pela tua simpatia, gramática trocada em fonemas esquisitos, complexo semântico de idiomas trocados, um calor eslavo arrebatado no vento, uma pena que ao se elevar nos céus ficou para sempre pesada no meu coração.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Copenhaga, Copenhagen, Cóbanhávan, Kaupmannahöfn, Kopenhagen, Kopenhaga, Копенгаген, کپنهاگ, קאָפּענהאַגען, 哥本哈根, 코펜하겐, โคเปนเฮเกน, ケーベンハウン, København, Hopenhagen!

Qual um velho fumador apodrecido com cancro sorvendo ar de um pulmão artificial, burgueses espalhados pelo mundo aguardam esperançosos o veredicto do concílio económico/diplomático que presentemente se desenrola nas frias terras dinamarquesas. Como velhas histéricas e puritanas vozes exigem reclamam apontam contradizem citam desmentem medeiam argumentam explicam demonstram propõem falam, falam muito. Como adolescentes expectantes e crédulos os ouvidos sorvem acreditam rezam vigiam especulam esperançam-se.

Estou-me a cagar, realmente a cagar para o empenho dos negociadores, os seus objectivos, os seus resultados. Estou-me a cagar, pois a solução está além das capacidades oratórias de meia dúzia procuradores encartados pelos interesses económicos de elites transnacionais. Estou-me a cagar porque a forma como as massas reagem é ela consequência do mesmo padrão comportamental que condenou o nosso mundo: a ignorância da consequência de alguns comportamentos individuais, o delegar da responsabilidade civilizacional a uma mão cheia de oligarcas, o conforto consumista que aquiesce às barbaridades ambientais e humanitárias. Estou-me a cagar para uma sociedade que aceita passivamente que a morte, fome, violência, desterro seja o dia a dia de milhões de habitantes neste mundo em favor da satisfação de caprichos, lazeres, ócios, mediocridades, petulâncias, manias, modas. Estou-me a cagar para uma classe média culta que despreza a natureza, as suas belezas, não aprecia a beleza na variedade de cores na foração da primavera, não olha o padrão pintarolado no céu nocturno pelas estrelas, que não conta as caracteras da lua quando reflecte a luz solar sobre a terra, não acompanha o padrão do voo das aves ou dos insectos mas olha invejosamente para o rasto do avião que rasga o azul. Estou-me a cagar porque não vale a pena chorar a morte de um amigo que não soubemos prezar, mimar, acompanhar, encorajar, fortalecer, compartilhar, tal como temos demonstrado não sabermos ser amigos da nossa biosfera.

sexta-feira, outubro 30, 2009

através do vidro duplo desfilam os tijolos castanhos e cinzentos, aproximando-nos da saida. dentro da carruagem corpos e vontades são pesados, avaliados, esquecidos a maior parte, poucos permanecem na memória mais que meio minuto. as vidas desfilam ignorando-se mutuamente, mudas de sentido, avarentos na partilha, fingem-se invisiveis, ignoram outras presenças. a viagem é um frete, um desperdicio de vida, um adiantamento da eternidade dentro do solo. dentro da terra deixamos de pertencer ao mundo, somos parte das trevas, a humanidade enterrada no solo metropolitano.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Que não saibas o que penso, porque sei que não te quero,
Não vivas a presunção da certeza em memória esquecida.
Não procures um sorriso simpático, ou um olhar sincero
E muito menos um coração derretido por alegrias da vida.

terça-feira, outubro 13, 2009

sinceramente...
...sinto-me tolo por acreditar
que serei louco se conseguir
aceitar e alcançar.
...sendo tolo por entender
que a confusão que há-de vir
dará menos riso que sofrer.
...a roda gira e gira e gira
e eu salto fora sem hesitar
ou agarro-me com fé à mentira?
...a tombola já roda e sorteia
a cautela que me irá calhar
é esperar pela lua cheia.

quarta-feira, setembro 23, 2009

O mundo dá voltas muito muito engraçadas...

sábado, setembro 05, 2009

Falta só meia hora. Espero pancientemente, e com o maior orgulho de ver Liedson entrar em campo com a camisola nacional, rompendo com ideias mesquinhas, e envergonhando a mentalidade do "orgulhosamente sós" que contamina e renega a dimensão cultural do povo português.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Relato de Viagem nº 7

Querido Peregrinário deixo o relato da minha sétima aventura em terras Galegas, que vivi na companhia do peregrino João Miguel.

Dia 0 - despedidas & viagem

O dia amanheceu cedo, quente e luminoso pelas terras de São Jacinto, onde estávamos acampados com o Agrupamento de Olivais Sul. Acordamos à hora da alvorada porque o cansaço acumulado desses dias, e as horas de sono em falta a tal nos obrigaram. Por nossa vontade teríamos nos levantado um pouco mais cedo, para aproveitar ao máximo o dia, mas, nesta vida, nem sempre o corpo consegue corresponder aos devaneios da mente. Com banho tomado e barriga cheia com o pequeno almoço despedimo-nos de todos a preceito e fomos com as nossas mochilas até ao carro. Arrumamos novamente tudo o que tínhamos a arrumar e preparamo-nos para uma viagem interessante para Norte, para além da fronteira luso-galega. Seriam cerca das dez da manhã quando saímos, possivelmente até um pouco mais cedo. A viagem foi suave, e parámos somente uma vez nas estações de serviço Portuguesas.

Na Galiza saímos da autoestrada, para evitar as portagens, e aproveitamos a estrada nacional 550 para melhor ver as paisagens que acompanham o Caminho Português. As colinas e montanhas, os rios e as florestas rebuscaram recordações de cinco anos atrás, quando pela primeira vez nos aventuramos a pé, desde Valença a Compostela.

Chegados a Santiago deixamos o carro estacionado perto da gare dos autocarros, e apanhamos o autocarro das quatro horas para Lugo (oito euros cada bilhete... ui, até doeu...), onde chegamos após mais hora e meia de viagem.

A estadia na cidade de Lugo foi deslumbrante, embora extremamente curta. A estação de autocarro era um pouco afastada do casco histórico de Lugo, por isso a primeira impressão que tive foi negativa, pois Lugo, pelas janelas do autocarro parecia-me uma cidade vulgar, cheia de casas e apartamentos banais espalhados pelas colinas e estendendo-se até às margens do rio, sem capacidade de me despertar interesse especial. Fiquei de boca aberta com a surpresa que me estava reservada. O centro de Lugo está contido numa muralha romana com cerca de dois mil anos. Óbidos e Monsaraz podem ter a sua mística e destaque entre as localidades lusitanas, pois estão harmoniosamente encrostadas entre as paredes protectoras dos seus castelos, mas não passam de pequenas pérolas quando comparadas com esta preciosidade que remonta aos tempos do Império.

O albergue estava lotado, portanto orientamos alojamento perto de uma das doze portas da muralha, onde descansamos e recuperamos forças para a caminhada.


Dia 1 – de Lugo a Melide

A noite foi vivida oscilando entre o sono profundo, fruto do cansaço de uma semana de escutismo e de seiscentos quilómetros de viagem misturado com meia garrafa de vinho morangueiro ao jantar, e da ansiedade repleta de sonhos irrequietos, quase pesadelos, onde virgens meio loucas, inseguras e fogosas nos atacam com beijos quentes e apaixonados, sedentos de amor, áridos de projectos e desertos de sensatez. Acordei assustado, confuso, certo de ter trocado os fusíveis da libido e do terror durante a noite, pois o que quase era um sonho erótico, caso se tivesse desenrolado adequadamente, arrancou-me ao sono como um shot de adrenalina, bastante antes da hora e não consegui voltar a pregar olho. Aprendi que a nunca mais pensar em quem não se pensa especialmente antes de ir dormir, para evitar acordar irritado e ressentido por desperdiçar tempo em quem não desejo pensar.

Saímos do hostal por volta das seis e meia da manhã. O sol ainda não havia nascido, e nas ruas jovens a adolescentes bebiam, trepavam e saltavam as muralhas. Encontramos o caminho e seguimos entre árvores e urtigas pelos baldios da cidade enquanto esperávamos a luz do dia. Rapidamente chegamos aos limites de Lugo, e para não tomarmos o caminho errado logo ao inicio, solicitamos à primeira pessoa que encontramos que nos indicasse a direcção de Santiago, e assim seguimos caminho, procurando atentos um local acolhedor onde tomar o desayuno.

Saímos de Lugo atravessando a ponte que cobre o rio, e o dia despertou quando caminhávamos seguindo a margem, que abandonámos rapidamente para começarmos a subir as encostas em direcção a Melide. Durante horas palmilhamos estradas e caminhos, e a cada passo percorrido mais desejosos ficávamos de aquecer o estômago com um cafezinho com leite e umas bolachitas. Aldeias e vilas não existiam, só estradas de alcatrão, caminhos de terra batida, colinas verdejantes e vales fecundos. Verde, verde era a aragem fresca que nos alentava debaixo do céu nublado e cinzento, e provia de um tapete estendido sobre a terra por quilómetros e quilómetros em nosso redor, um tapete matizado em tons de verde, ocasionalmente dourado, ocre ou castanho, um teado orgânico elaborado por gerações de camponeses lavrando, semeando, podando, plantando, adubando, colhendo, orando e abençoando o fértil do solo galego.
Infelizmente, para nós, dois caminhantes incautos, tamanha beleza rural significava ausência de actividade humana (exceptuando a agrícola e a pecuária) só avistamos o primeiro café cerca das dez/onze horas, que convenientemente estava fechado para férias, por isso, rendemo-nos ao caminho matamos a fome com pêras verdes, cidras ácidas e amoras silvestres. Caminhamos e caminhamos durante bastante tempo sem avistar outros peregrinos, e só ocasionalmente encontrávamos alguém pelos campos, ou de tempos a tempo um carro passava.

Eram cerca do meio dia, tirando ou pondo meia hora, quando nos cruzamos pela primeira vez com outros peregrinos. Era um grupo pequeno de adolescentes que também haviam saído de Lugo nesse dia, e que iriam pernoitar em São Pedro da Retorna (ou como raios se chama a terra). Nós havíamos planeado a pernoita em Palas de Reis, a 35km do ponto de partida, e como apenas faltavam 15km (e um pequeno almoço condigno) decidimos continuar a andar. É sempre um erro caminhar sem mapa, especialmente quando seguimos indicações que não nos conduzem onde julgamos nos dirigir, e descobrimos mais tarde, a custo de muito peregrinar, que Palas de Reis era por um qualquer outro trilho, e que durante 10 km nem uma casa avistariamos.

Já eram três horas da tarde quando encontramos o marco dos 66km pintado com um Arco-íris. Logo em frente um casebre humilde tinha uma bandeira colorida gritando Pace hasteada. O JM bateu à porta, para pedir água para o seu cantil, e de dentro duas simpáticas raparigas responderam convidando-nos a entrar, comer, beber, descansar, a pernoitar se fosse o nosso desejo, a almoçar ou jantar consoante o nosso apetite, a tocar e cantar, a escrever no livro de visitas. Ficamos a repousar durante hora e meia, enquanto bebemos um cafezinho com leite e canela e cantamos musicas dos xutos, e depois fizemo-nos novamente ao caminho energizados pela cafeina.

Foi bastante agradável chegar a Melide, cercva das seis da tarde. O albergue municipal estava cheio, devido ao afluxo dos muitos turigrinos que fazem o Caminho Francês no verão, e por isso ficamos alojados num pavilhão de congressos.


Dia 2 - de Melide ao Monte do Gozo

Iniciamos o segundo dia com um compromisso não assumido de tentar alcançar o Monte do Gozo, a cinco quilómetros de Santiago. Andámos, andámos, andámos, andámos. A uns 7 quilómetros antes do monte do gozo começaram a aparecer placas indicando a proximidade do mega-albergue com capacidade para 800 pessoas. É incrível como o tempo e a distância são conceitos relativos que se distorcem com o cansaço, e como uma hora de percurso se transforma em duas ou três quando os músculos das pernas e os pés doem, e como duas horas se transformam rapidamente em quatro e a próxima meta não chega, pelo contrário, afasta-se cada vez mais, multiplicando os quilómetros que faltam através de curvas, desvios, subidas, descidas, alcatrão, suor, fatiga, e como infalivelmente uma voz aparece nas nossas cabeças criticando a estupidez de um percurso tão longo, rezando por um sofá acolchoado reservado a peregrinos escondido na próxima esquina, entretendo-te com trivialidades tentando não calcular quanto já andaste ou ainda tens para andar nesse dia, elaborando planos da próxima aventura que obviamente em que tudo será mais sensata, invejando uma tarde em redor de uma piscina com uma cerveja e boas vistas. Os últimos quilómetros antes de chegar à Catedral são sempre os mais desagradáveis, a paisagem torna-se mais urbana, os caminhos asfaltos prolongam-se ininterruptos, as pequenas manadas de vacas, cabras, ovelhas esfumam-se substituídas por manadas de turistas que enriquecem as gentes da terra, aldeamentos para turistas efémeros oferecem cama, pequeno almoço, selo , coca-cola, três pratos ao jantar, num pacote de repouso a preço de conveniência, sebes, árvores, valas, dão lugar a grades, grades, prisões que impedem os curiosos de se aproximarem do aeroporto para que não levem com um avião na cachola, de invadirem a estação de televisão, de entrar pelo parque de campismo abandonado em que já funcionou uma piscina que ainda espicaça a imaginação dos que passam.

Entramos no albergue do Monte do Gozo cerca das sete horas. No balcão da entrada, enquanto efectuava mecanicamente o ritual de carimbar a credencial e registo dos nossos dados, a recepcionista verificando poucos selos registados comentou "Camiñaste pouco, non", respondi "Temos é poucos selos. Começamos a andar em Lugo... Ontem...", o que a fez arregalar os olhos, reparar na data de cada carimbo, bater com o indicador na testa, exclamavar "Vosotros son locos! Isso san muitos quilómetros". "Sim, é verdade, foi uma estupidez, é daquelas asneiras que apenas se fazem uma vez na vida... Nunca mais repetir".


Dia 3 - Santiago de Compostela

Acordamos cerca às nove e pouco, arrumamos as tralhas, e aproveitamos para observar o espaço destinado aos peregrinos. Existe uma zona reservada às tendas, antes do perímetro vedado, e dentro do perímetro dezenas de barracos compridos equipados com cozinha, sanitários e beliches albergam os caminhantes. No centro de tudo existem os restaurantes para os vários bolsos, as máquinas de café, os bares, e mais algumas lojecas que não perdemos tempo a cuscar porque, afinal de contas, ainda estávamos em peregrinação.

Demoramos cerca de uma hora a chegar à Catedral, e depois foi o roteiro do costume: arranjar um hostal perto da Catedral, para evitar andar carregado com a mochila, carimbar a credencial e obter a Compostela, ir à missa do Peregrino, e passear, passear, passear, para não deixar os músculos arrefecer.

segunda-feira, julho 13, 2009

Alive nunca mais! De que serve um festival quando se está a pagar por musica que não se pode usufruir? Bem, para fazer dinheiro, gerar retornos, circular capital, através de uma aplicação de uma industria de ócios e desperdícios!

segunda-feira, julho 06, 2009

On the first day God said "there will be light", and there was light.

On the second day he said "there will be skies and oceans and continents" and the Earth was born.

On the third day he said "there will be grass and trees and herbs and shrubs and weeds with flowers and fruits and all that good stuff" and a green chlorophyllic carpet covered the barren lands and painted the vast oceans.

On the forth day he cried "there will be lights on the skies, always dancing around the Earth. And the sun and the moon and the stars and the planets and nights and days came to be.

On the fifth day he touched the waters and the skies and said "let them be filled with birds and bees and squids ans sharks and whales and flying fishes and seagulls and penguins" and all those little animals came to be. He also made the pigeons, so he could piss of other animals for a few eons.

On the sixth day God was rather happy with himself, so he gathered some leaves from the tree of knowledge, made a huge spliff and started having the craziest ideas. Made the creatures of the land, all the birds that can't fly, and hid the bones of massive creatures on the earth bowels. He also made a self conscious but delusional being called man, an set him loose on the world. He started wondering what sort of mind games could he use to play with man. He then made a woman and went to sleep with a grind in his chin.

On the seven day God woke up early and realized what he had done by creating man. So he made Perfection: a human soul that would be grafted on special ones from time to time. And so, I came to love Perfection.

sexta-feira, junho 26, 2009

Os dias solarengos de Junho, quando não exageradamente quentes, são prazenteiros e ideais para vaguearmos pelas ruas e praças no coração da baixa, beber umas ginjinhas nos tascos centenários onde o chão se cola às solas das sandálias e cuja clientela eclética tem sempre estórias dignas de serem apreciadas, ver os artistas, extorquistas, prostitutas, exibicionistas, vendilhões e aldrabões que inundam a Rua Augusta com ofertas e assédios, nos guiarmos pelas textura de odores a batata frita, pastelaria fresca, caracóis com oregãos, sardinhas na brasa, bifanas com vinho tinto da pipa. Num desses dias as deambulações levaram-me até à miscelânea de culturas que se encontram pela praça do Martim Moniz. Ciganos, asiáticos, africanos, indianos e causasianos cruzam-se nas ruas, alguns acelerados pela pressa citadina, outros pasmaceiramente vendendo ou comprando vícios apregoando a mercadoria com a cumplicidade no olhar.

Meti a mão no bolso para contar os trocos e bastou chocalhar um pouco para certificar que tinha suficiente beber umas cervejas sem preocupações. Caminhei pela praça, ignorando as ofertas e assédios, e sentei-me no fava rica, onde me refresquei com uma imperial debaixo do olhar sempre vigilante do Castelo de São Jorge. "Mao, Mao", ouvi, pouco antes de pousar o copo pela segunda vez na mesa de alumínio, "Mao, amigo", ecoou mais alto e perto a voz de sotaque asiático, enquanto uma palmada seca nos espaldares fez-me estremecer e por pouco não entornei o sumo de cevada sobre a mesa. "Tao", gritei alegremente quando me virei e vi duas caras de meia idade, sorrisos abertos e olhos rasgados irradiando alegria. Levantei-me a apertei Tao num abraço, e cumprimentei a esposa com dois beijos. Conhecia-os há vários anos, pois haviam sido donos de um restaurante na rua dos Douradores onde me tornei cliente regular mesmo antes de, por uma daquelas ironias que o destino tem, me tornar colega do seu filho na universidade.

Sentarem-se e pediram uma água com gás -sabor de groselha para a senhora, de limão para Tao- e ficamos a repenicar nas memórias.